domingo, 14 de dezembro de 2014






Não lembro exatamente de tudo, apenas algumas partes importantes, bom por isso que lembramos delas, elas são importantes certo?

Não sabia o que estava acontecendo comigo nas semanas anteriores, eu estava, descansando, não é a palavra certa, mas é a que mais se aproxima do meu estado mental. Meu corpo doía, meu peito doía mais precisamente, como se eu, tivesse recebido golpes com alguma coisa afiada, loucura eu sei, afinal, era impossível, talvez lembranças de uma outra vida que agora meu corpo insistia em reproduzir, não sei dizer exatamente, juro.

Eu tinha acampado em casa nas últimas semanas, saído apenas para fazer o necessário e quando recebi o convite de um amigo para ir num barzinho próximo comemorar seu aniversário meu primeiro impulso foi dizer que estava cansado, ocupado, qualquer coisa que me deixasse livre para não ir. No entanto eu respondi que iria, não sabia dizer por que, e francamente não pensei muito nisso, afinal eram apenas algumas horas fora de casa.

Fui até lá e me arrependi, instantaneamente, pessoas que não gostava, num ambiente barulhento, não me leve a mal, em outros tempos eu adoraria fazer parte daquilo tudo, mas não naquele dia. Eu sentei, lhe desejei feliz aniversário e pensei em ficar, talvez 15 minutos. Me servi de um copo de cerveja e sem socializar muito o bebi. As coisas não estavam exatamente ruins, eu apenas estava tentando não focar muito, aproveitar o meu momento, com aquele copo, bobo eu sei, mas lá estava eu saboreando a cerveja enquanto as pessoas ao meu redor simplesmente não faziam diferença.

Passados os 15 minutos eu me levantei, disse que já estava indo, mas meu amigo-me segurou, pediu que eu esperasse, que ele tinha uma garota que gostaria de me apresentar. Eu disse obrigado, mas não obrigado. Ele insistiu e bem, novamente eu disse que sim. 

Esperei outros 15 minutos, outros 2 copos de cerveja até que ela chegasse, admito ela era deslumbrante, em cada sentido da palavra, mas tudo que ela me causou foi aquela dor estranha no peito, eu não estava interessado, foi o meu primeiro talvez o segundo pensamento. Ela cumprimentou pessoas na mesa, fomos apresentados, ela sentou do meu lado, talvez aquilo tivesse sido planejado, imagino que tivesse sido. Ela demonstrou logo que também, não tinha interesse, talvez minha aparência, ou mesmo a total falta de interesse nos meus olhos, não importava eu levantei e novamente me despedi do meu amigo, despojei um aceno para a garota, não sei seu nome, não perguntei e pelo que lembro ela não me disse.

Fui até a frente do Bar, acendi um cigarro, dei a primeira tragada, aquela primeira que carrega os primeiros gramas de nicotina e deixa uma calma estranha. Duas garotas vieram e me pediram o isqueiro emprestado, quando penso sobre, parece tão irreal, tão... coisa de filme, mas foi assim que começou, essa é a lembrança importante, a primeira talvez, eu cedi meu isqueiro para elas, eu não lembro como era a segunda, mas lembro da primeira, lembro por que, bom, basta eu olhar para o lado e ver seu rosto enquanto ela dorme, enfim, foi ela quem veio e me disse “Pode emprestar o isqueiro”, eu travei por alguns segundos, ou talvez não, mas tive essa impressão.

Ela acendeu seu cigarro, acendeu o cigarro da amiga e me devolveu o isqueiro, pensei que era isso, nunca mais a veria, mas enquanto a amiga atravessou a rua e voltou para seu grupo de amigos ela ficou ali, ela não sabe dizer por que ficou, sim eu perguntei, mas ela nunca soube dizer, “o universo talvez” foi sua resposta, mas ela ficou. Disse que estava tentando parar de fumar, mas não estava conseguindo, eu disse que eu também estava, ela riu, me estendeu a mão e se apresentou, Sophie, seu nome, eu me apresentei então ela veio com a ideia maluca: “ei a gente podia parar de fumar hoje, um último cigarros e ai paramos juntos, ouvi dizer que é mais fácil quando se para com uma outra pessoa” Eu ri, ela riu, eu apaguei meu cigarro puxei o dela, num impulso e apaguei também, abri a carteira e puxei 2 cigarros, acendi o meu, dei um a ela e também acendi, fumamos e começamos a nos conhecer.


Não, aqueles não seriam nossos últimos cigarros, eventualmente nós paramos, mas aquilo foi o princípio de tudo.


"Retirado de - Sophie"

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